11.2007
Museu Aleijadinho, em Ouro Preto, se transforma em referência da obra do mestre do barroco
A requalificação, realizada pela Associação Espírito Santo Cultura, revitaliza o museu, que mostrará relíquias inéditas de Aleijadinho e do barroco brasileiro. A reinauguração acontece no dia 27 de novembro, com as presenças do ministro da Cultura, Gilberto Gil, do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, e do prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo de Araújo Santos

O Museu Aleijadinho, instalado na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, em Ouro Preto, Minas Gerias, será reinaugurado no dia 27 de novembro (terça-feira), com uma moderna concepção museográfica, idealizada pela Associação Espírito Santo Cultura, onde a visitação pública irá interagir harmoniosamente com os espaços religiosos. O museu exibirá obras do artista, documentos originais e um rico acervo de arte sacra. O legado artístico do gênio da arte barroca brasileira, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, pela primeira vez estará reunido em um só lugar. Um multivídeo, apresentado em uma grande tela instalada dentro da igreja, mostrará toda a obra de Aleijadinho que está espalhada pelas cidades históricas mineiras. A nova fase do museu será marcada ainda pela exposição de uma belíssima coleção de totens de madeira que retratam as etapas de elaboração da talha barroca dourada, uma doação da FundaçãoCalouste Gulbenkian, de Portugal. O projeto de requalificação do museu tem o apoio da Iphan/Ministério da Cultura, do Governo do Estado de Minas Gerais e da Prefeitura de Ouro Preto.
O acervo do museu dispõe de peças notáveis do mestre do barroco, como os leões de essa (que sustentavam as urnas nas cerimônias fúnebres); o São Francisco de Paula, um raro santo de roca (de vestir), em pedra sabão policromada; o Crucificado e um conjunto de relicários. Entre as relíquias, uma deverá chamar muita atenção do público — o metacarpo (osso que fica entre o carpo e os dedos) de uma das mãos do artista. Até hoje a medicina não determinou o que provocou a perda dos dedos das mãos e dos pés do mestre do barroco, que amarrava as ferramentas de trabalho nos cotos das mãos para esculpir as imagens que competem com o melhor do barroco europeu. Além do osso da mão, uma das vértebras do artista também estará em exposição.
— A Associação Espírito Santo Cultura sente-se honrada em poder devolver à cidade de Ouro Preto e a seus visitantes o Museu Aleijadinho renovado. As linhas mestras de nossas propostas foram definidas desde o início: a ênfase na dimensão universal da obra de Aleijadinho; a concepção de uma unidade museológica “revitalizada”, convivendo com um templo aberto ao culto; e o papel do museu na captação de novos públicos. Consideramos ainda as realidades pedagógica e didática; com o uso de tecnologias de multimídia capazes de virtualmente trazer para o espaço do museu a obra de Aleijadinho, dispersa pelas cidades mineiras. Um convite para os visitantes percorrerem o belíssimo roteiro do barroco, explica Maria João Espírito Santo Bustorff Silva, presidente da Associação Espírito Santo Cultura.
O Museu Aleijadinho passa a ter, além das salas da sacristia e da cripta, um novo espaço de exposição permanente — no consistório—, um mini-auditório e uma sala para projeções de áudio e vídeo nas tribunas do santuário. Com a requalificação, o Museu Aleijadinho se transforma em uma referência da obra do artista. O trabalho de museografia é do arquiteto Haron Cohen. A curadoria do museu é do historiador português José de Monterroso Teixeira, um especialista em cultura barroca. Os espaços do Aleijadinho foram organizados por temas: “Festa Religiosa”, na sala do consistório, mostrará paramentos litúrgicos, sacras de altar e relicários utilizados nas festividades da Igreja; “O ouro”, na antiga sala da sacristia, onde ficarão em exposição permanente os objetos de policromia dourada, tocheiros e prata dourada, que caracterizam a refulgência da sociedade mineira da época; “Encenação da morte”, na sala da cripta, onde serão expostos objetos fúnebres, tais como os leões de essa e os crucifixos; e “Arte da Talha”, na sala do consistório, onde também estarão expostos os totens em madeira, que vieram de Portugal, importante coleção que teve a curadoria do historiador de arte norte-americano Robert Smith.
— O Museu Aleijadinho veio destacar e enfatizar um território no qual pulsa o gênio do artista e se evoca a sua caminhada, que assinala a trajetória do ciclo do ouro e da primeira sociedade urbana do Brasil. Texto e contexto se articulam. A esplêndida transformação que se concretiza no Museu Aleijadinho honra a cidade patrimônio mundial da humanidade e abre várias possibilidades de ação e de educar, de instigar a sensibilidade, de enriquecer o conhecimento e de dotar a cidadania de identidade cultural. Com inovações que o valorizam, o Museu Aleijadinho credencia-se a ser o pólo de convergência dos estudos aleijadianos, afirma Angelo Oswaldo de Araújo Santos, prefeito de Ouro Preto.
O projeto de requalificação do Museu Aleijadinho, que contou com a Lei Federal de Incentivo à Cultura, foi patrocinado por: Espírito Santo Investiment, Cemig, Caixa Econômica Federal, Fundação Calouste Gulbenkian e Bradesco Seguros e Previdência.
Evento de reinauguração
A reinauguração do Museu Aleijadinho será no dia 27 de novembro de 2007 (terça-feira), às 17h, com a presença do ministro da Cultura, Gilberto Gil; do Governador do Estado de Minas Gerais, Aécio Neves; do prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo de Araújo Santos; do presidente do Iphan, Luiz Fernando de Almeida; do embaixador de Portugal, Seixas Corrêa; da presidente da Associação Espírito Santo Cultura, Maria João Espírito Santo Bustorff Silva; e do fundador do museu, Dom Francisco Barroso, entre outras autoridades. O Museu fica na Igreja Matriz de Nossa Senhora daConceição de AntônioDias, na Praça de Antônio Dias - Bairro Antônio Dias - Ouro Preto, Minas Gerais.
Acesso ao tesouro do barroco
O público terá acesso virtualmente ao importantíssimo legado que Aleijadinho deixou. Ele foi arquiteto, escultor e desenhista. O museu exibirá permanentemente um multivídeo que mostrará todas as obras do artista que estão em Minas Gerais. O trabalho do mestre do barroco será apresentado em uma grande tela, instalada dentro da igreja, na tribuna do lado esquerdo. O multivídeo, com 12 minutos de duração, é uma espécie de “poesia visual”. A edição, pontuada por trechos de versos de poetas brasileiros — Cecília Meireles, Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e Murilo Mendes — valoriza o caráter estético das imagens. Em um dos trechos, Cecília Meireles narra com emoção única a saga de Aleijadinho:”Todos os sonhos barrocos deslizando pelas pedras...Anjos e santos nascendo em mãos de gangrena e lepra.Armado pó que finge eternidade, lavra imagens de santos e profetas cuja voz silenciosa nos persuade....”.
As obras de Aleijadinho estão apresentadas por cidades: Caeté, Barão de Cocais, Nova Lima, Catas Altas, São João Del Rey, Sabará, Mariana, Congonhas do Campo e Tiradentes. As imagens são do fotógrafo José de Paula Machado. A pesquisa musical foi realizada pela historiadora Anna Kieffer, que produziu especialmente uma trilha sonora de música barroca e sonoridades da época para recriar o ambiente do Brasil colônia.
Livro-catálogo revela conteúdo do Museu
O livro “Aleijadinho: devoção e drama”,com todas as informações referentes ao acervo do Museu Aleijadinho, será lançado na reinauguração do museu, no dia 27 de novembro. Os textos são do curador da exposição, José de Monterroso Teixeira, com prefácio da professora Myriam Andrade Ribeiro de Olivira, a maior autoridade brasileira na obra do Aleijadinho. A obra explica ainda a contextualização do museu, além de conter uma detalhada cronologia referente aos acontecimentos políticos e econômicos, à cultura geral e às artes, de 1738 (ano provável do nascimento de Aleijadinho) até 1814 (ano de sua morte). O livro-catálogo foi editado pela Editora Meta Livros e tem cerca de 200 páginas. A coordenação editorial é da Associação Espírito Santo Cultura.
Mestre Aleijadinho
Se não fosse pelo esplendor das obras deixadas nos altares, adros e fachadas das igrejas de Minas Gerais, prova incontestável de sua existência, o mestre Antonio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho, poderia muito bem passar por uma lenda. Até seu rosto permanece sob um véu de mistério — a autenticidade do único retrato atribuído a ele é posta em dúvida pelos especialistas. Ainda hoje existem controvérsias quanto à data de nascimento e a formação artística do escultor, bem como sobre suas andanças pelo interior mineiro.
Antônio Francisco Lisboa, nascido na antiga Vila Rica, em 29 de agosto de 1730 (data provável), e falecido em 18 de novembro de 1814, pelo teor de sua obra, é considerado o maior expoente do estilo barroco nas Minas Gerais (barroco mineiro) e das artes plásticas no Brasil durante o período colonial. Filho do mestre português Manuel Francisco Lisboa e de uma escrava, com aproximadamente 40 anos começou a desenvolver uma doença degenerativa dos membros, que lhe comprometeu gradativamente os movimentos das mãos. Não se sabe ao certo se ele foi acometido por porfiria, lepra, escorbuto, reumatismo deformante ou sífilis. Para continuar com seu ofício, um ajudante amarrava-lhe as ferramentas nos membros. Dessa anomalia em seu corpo veio seu apelido, Aleijadinho.
Aleijadinho é autor de obras memoráveis como as que estão em Congonhas, as imagens dos Passos da Paixão na Igreja Basílica (um conjunto de 66 obras esculpidas em cedro que relatam a via sacra de Jesus Cristo), e dos 12 profetas do ador do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. O magnífico conjunto estatuário foi executado em menos de cinco anos. Já bastante debilitado pela doença, Aleijadinho deixou nas imagens dos profetas a marca do seu gênio.
O artista morreu pobre, foi sepultado na cova da Senhora da Boa Morte, ao pé do primeiro altar do lado direito da nave da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. Na mesma igreja estão os restos mortais de seu pai.
Arte Barroca
A arte barroca originou-se na Itália e atingiu outros países da Europa. Chegou à America juntamente com os colonizadores portugueses e espanhóis. Nela, as emoções se contrapõem ao racionalismo renascentista. O estilo barroco traduz a tentativa angustiante de conciliar forças antagônicas: bem e mal, Deus e diabo, céu e terra, pureza e pecado, alegria e tristeza, paganismo e cristianismo, espírito e matéria e razão e emoção. Os efeitos decorativos e visuais são dados por curvas, contracurvas, espirais, colunas retorcidas — entrelaçamento entre a arquitetura e escultura e acentuados contrastes de luz e sombra.
Para o escritor Joel Neves, em “Idéias Filosóficas no Barroco Mineiro”, “A forma barroca vem inaugurar uma exigência não apenas no campo estrito da arte, mas igualmente uma nova postura face à racionalidade. Preferimos compreender o barroco como inaugurador e não como resultante de uma causalidade que em si contivesse, já formalizadas, as teorizações de uma possível mudança de enfoque da razão. Sem dúvida, o barroco é uma nova concepção de mundo, de homem, o gérmen de uma nova concepção de razão”.
Museu Aleijadinho
O Museu do Aleijadinho foi criado em Ouro Preto, por Dom Francisco Barroso Filho, em 1968, para reunir, conservar, preservar e difundir objetos de arte sacra e documentos gráficos de valor histórico, além de realizar pesquisas e estimular atividades no campo da história da arte. A denominação do museu é uma homenagem ao maior artista ouro-pretano de arte barroca, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, patrono da arte no Brasil. Ele foi o construtor, dentre tantos monumentos, da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, onde se abriga o museu.
Visitar o Museu Aleijadinho é, também, atravessar o bairro de Antônio Dias, conhecer suas ladeiras, os belos chafarizes, os casarões repletos de história, as lembranças de Marília de Dirceu e a arte de bem viver no coração de Ouro Preto. Ateliers de pintores e escultores, lojas de artesanato, restaurantes e pousadas são facilmente acessíveis na caminhada. O Museu Aleijadinho dispõe de livraria e setor de informações.
Matriz de Nossa Senhora da Conceição
A velha freguesia de Antônio Dias guarda o nome do bandeirante paulista que fundou a cidade, em 1698. Ele mesmo começou a construir a igreja, ampliada pelas artes do mestre português Manuel Francisco Lisboa (viveu cerca de 40 anos em Minas e morreu em 1767), pai do Aleijadinho. A talha dos altares laterais, em estilo barroco, remonta às primeiras décadas do século 18.
A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias é um dos mais importantes templos de Ouro Preto, pela sua arquitetura e ornamentação. Possui oito altares laterais talhados em rica e minuciosa arte rococó, exprimindo direta influência portuguesa. Em frente ao primeiro altar está sepultado Antônio Francisco Lisboa. No trono do altar-mor encontra-se a imagem de Nossa Senhora, modelada em tamanho natural e talhada por Conceição de Murilo, em 1893.
As colunas salomônicas desse altar foram executadas por Mestre Felipe Vieira, entre 1760 e 1765. Merecem destaque dois púlpitos esculpidos por Aleijadinho em pedra sabão, datados de 1771, onde o artista incrustou as figuras de quatro evangelistas e, ao centro, a figura de Jesus Cristo pregando no Mar de Tiberíades, sobre uma barca. Manuel da Costa Athayde foi o pintor responsável pela decoração da igreja. No teto, ele representou a Assunção de Nossa Senhora, o rei Davi aos pés da santa, cantando ao som de harpa e uma revoada de anjos.
Serviço
Museu Aleijadinho
Praça Antônio Dias - Bairro Antônio Dias - Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil.
Ingresso: R$ 6,00 (R$ 3,00 para estudantes e idosos), o ingresso é válido também para a visitar a
Igreja de São Francisco de Assis.
Visitação: Terça a domingo, das 8h30 às 12h e de 13h30 às 17h
Tel.: (31) 3551-4661
Espírito Santo Cultura
A Associação Espírito Santo Cultura é uma instituição brasileira, instalada no Rio de Janeiro, sem fins lucrativos, e é ligada ao Grupo Espírito Santo. A associação, presidida por Maria João Espírito Santo Bustorff Silva, ex-ministra da Cultura de Portugal, desenvolve e coordena projetos de museologia, museografia, restauro e recuperação de obras artísticas (azulejos, talhas, pintura e douramento), entre outras atuações na área cultural. Um outro objetivo da instituição é a capacitação de mão-de-obra.
A instituição foi criada em 1998. Desde então esteve à frente de restauros e recuperações de obras muito relevantes para o patrimônio artístico-cultural do Brasil, entre as quais destacam-se, a restauração completa da Igreja de Santo Antônio de Iguassu (Pernambuco), a recuperação dos azulejos da Ordem Terceira de São Francisco de Salvado (Bahia), a restauração dos azulejos da Igreja do Outeiro da Glória (Rio de Janeiro). Atualmente realiza o projeto de requalificações museológica e museográfica do Museu Aleijadinho (Ouro Preto, Minas Gerais) e a restauração das talhas e dos santos da Igreja do Outeiro da Glória (Rio de Janeiro).
Mais informações
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Tels. (21) 3234-1816
Geisa Souto - (21) 9943-5159
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